Quando o pouco era tudo sobre a nossa mesa,
tu repartias o pão, o sono e os dias.
Enquanto a casa em silêncio dormia,
costuravas, na sombra, a nossa leveza.
No teu ombro materno escorava-se o mundo,
mas tua voz transformava o medo em calma;
do teu silêncio erguias um teto profundo,
tecido de afeto, ausente de palmas.
Hoje entendo o peso que antes não via:
quantas dores calaste sem nada dizer.
A tristeza te embebia o anoitecer,
mas sorrias ao sol que à porta nascia.
E escuto, mãe, com tristeza serena,
o que só o tempo nos diz, devagar:
que o amor é alguém a própria vida gastar
para que a dor do outro pareça pequena.
Por isso, mesmo que tudo em mim anoiteça
e eu já não saiba por onde seguir,
hei de buscar, no fundo do teu existir,
minha primeira luz, que guardas acesa.
São José dos Campos, 13 de maio de 2026.