As escolas literárias não são categorias estanques nas quais possamos enquadrar completamente os autores em determinadas épocas. No entanto, elas são úteis para observarmos as diferentes maneiras de se enxergar o mundo que foram surgindo no decorrer do tempo, e como cada visão responde a questionamentos anteriores ao mesmo tempo que cria novos. Mas, voltando à afirmação inicial, mesmo assim os melhores autores, em geral, não se deixam encaixar tão facilmente.
Olavo Bilac, por exemplo, é um poeta da escola parnasiana, movimento marcado pela busca da perfeição formal. Na poesia de Bilac vemos isso nitidamente na sua criação de versos metrificados, utilização de rimas ricas e palavras eruditas. O poema "Profissão de Fé" deixa claro:
Quero que a estrofe cristalina,
Dobrada ao jeito
Do ourives, saia da oficina
Sem um defeito:
No entanto, em "Ora (direis) ouvir estrelas", o mesmo Bilac escreve:
E eu vos direi: “Amai para entendê-las!
Pois só quem ama pode ter ouvido
Capaz de ouvir e de entender estrelas.”
Manuel Bandeira oferece outro exemplo interessante. Mestre do verso livre, em seu "Itinerário de Pasárgada" reconhece que Bilac fora um dos poetas que mais estudou e, embora a sátira "Os Sapos" seja frequentemente tomada como uma alfinetada a Bilac, dada a paródia da sua "Profissão de Fé", na verdade dirigiu-a a certos escritores do pós-parnasianismo. Ademais, é bastante enfático em dizer o quanto a conquista do verso livre lhe fora difícil, dado o hábito do ritmo metrificado.
Bilac e Bandeira transcenderam suas escolas e nos mostram, ainda hoje, que os grandes escritores não são bem comportados - e talvez seja isso que os mantém vivos.